O Google está destruindo nossa memória?
Escrito por h.d.mabuseNo poema Doomsday de Jorge Luiz Borges (que inicia com imagens do fim do mundo em várias civilizações, tempos históricos e contextos) há uma constatação que, para muito além das paranóias milenaristas, crenças cristãs e choques ideológicos, o fim do mundo como conhecemos, acontece todo tempo, “em cada pulsação de teu sangue”.
De uma forma bem-humorada, um cartum com o diálogo entre dois Maias, sobre o seu tão falado calendário, tem circulado na internet nos últimos dias, com a síntese da preocupação tornada piada com esse evento que vira e mexe toma novamente o centro de nossas atenções e vira título de vários filmes de cinema catástrofe. Esse ano movido pelas interpretações das previsões Maias.
E parece que nada é melhor para atrair pensamentos sobre o fim dos tempos do que mudanças tecnológicas. Dessa vez quem canta a pedra são pesquisadores das universidades estadunidenses de Columbia, Wisconsin-Madison e Harvard. No paper “Efeitos do Google na Memória: Consequências Cognitivas de ter Informação na Ponta dos Dedos” (no link em inglês) eles nos escrevem sobre como “A Internet tornou-se uma forma primária de memória externa ou transacional, onde a informação é armazenada coletivamente fora de nós mesmos”, as observações desse paper baseadas em experimentos científicos levam fácil e rapidamente a chamadas sensacionalistas do tipo “O Google está destruindo nossa memória”.
A história se repete (se nesse caso como farsa ou tragédia não nos cabe questionar), é no mínimo curioso notar que o apelo da chamada nos remete diretamente à uma outra invenção que foi recebida da mesma forma, como um instrumento que levaria ao fim da capacidade de pensar do ser humano: a escrita. Em 380A.C. Platão, nos seus Diálogos, colocou as seguintes palavras na boca Faraó: “Aqueles que a adquirem [o hábito da escrita] vão parar de exercitar a memória e se tornarão esquecidos; confiarão na escrita para trazer coisas à sua lembrança por sinais externos, em vez de fazê-lo por meio de seus recursos internos. O que você descobriu é a receita para a recordação, não para a memória”. Muitos gregos acreditavam que a escrita limitaria as humanos. Como toda tecnologia de comunicação ela mudou o ser humano para caminhos que nos levaram à cultura humana que conhecemos hoje. Com o livro foi facilitado o esquecimento, uma etapa fundamental para o aprendizado, “não lembrar é parte do objetivo da memória!” diz o professor Luciano Meira.
“Na expansão podemos esquecer” e assim, felizmente, fugir do desfecho de outro conto do mesmo Borges (Funes, o memorioso) onde o escritor argentino nos dá um relato dos infortúnios de uma memória ficcionalmente eidética.


Muito bom! Interessante saber que esquecer faz parte do processo de aprendizado.